Eu soube que se tratava de uma epidemia quando, além de amigos, notei desconhecidos - em bares, ônibus, na rua - usando. Era uma arma minúscula, sutil, e que, na palma de nossas mãos, adquiria uma proporção microscópica e repercussão homérica: o Tinder. ''Eu comecei a usar essa semana e estou adorando'', disse meu amigo jornalista, virando-se, a cada segundo, para verificar a fila do banheiro. ''Sério, não é tão ruim, e é bem pratico. Na verdade, bem melhor que na vida real: podemos bloquear os mais chatos e não vê-los nunca mais. Convenhamos, esse é um salto maior do que pisar na lua.''

''Não sei, não'', respondi, soltando a fumaça do cigarro e observando, numa pausa, a névoa descrever arabescos na noite gélida. ''Nunca gostei desses aplicativos de relacionamento. Confesso, a proposta deles é interessantes,mas são muito impessoais.São praticamente vitrines de um açougue! A carne que, na sua opinião, irá te satisfazer, você escolhe.''

''O que eu quero dizer'', prossegui, notando a face crispada do meu amigo, ''é que se  trata de um cardápio, é o fast food dos encontros amorosos: rápido, momentaneamente prazeroso e insosso! Há uma certa ''produtização'' humana nisso. As pessoas ficam lá, esperando alguém selecioná-las sem ao menos conhecê-las direito. Construções afetivas não podem ser assim tão rápidas.''

''Mas, aí é que está: nem todo mundo quer isso. Nem todo mundo quer isso; uma relação sólida.Nem todo mundo quer uma relação, aliás. Façamos uma comparação:  há anos, casais comunicavam-se através de cartas. Eles tinham que confiar no que recebiam, na imagem que lhes eram dada, caso não se conhecessem. A carta, em si, não deixava de ser um artificio ''dissimulador'', pois, obviamente, escreveriam seus atrativos'', meu amigo argumenta e continua: ''Os aplicativos são um equivalente contemporâneo das cartas. Eles usam dessa facilidade moderna para um novo tipo de relacionamento ágil. E, afinal, qual é o problema da rapidez? Comer, uma vez na semana, no Mcdonalds, ao invés da Subway, não mata ninguém.''

''Não sei'', murmuro, dando outro trago. Sinto a essência adocicada do Marlboro Lights penetrar em meus pulmões, enchendo-os da mais cândida sensação de fastio. ''Eu apenas tenho medo de não agradar. E se eu não parecer o suficiente para o amor da minha vida? E se ele achar que o melhor para ele é um Big Mac e não um Baratíssimo? É tudo muito liquido, entende? Realmente liquido porque flui, mas não tem contorno e, por isso, escorre, vaza...''

Voltei para casa - tropeçando nos degraus da entrada, a cabeça latejando -, às seis da manhã. Giro as chaves na fechadura, paralisando-me, durante poucos segundos, na frente da porta. Encaro o celular sobre a mesa e, ao ver seu brilho alvo fulgurar na densidade sombria da sala, apanho-o, discando o número certo, apesar da desorientação mental. Ele atende após dois minutos, a voz serena transmitindo aquele langor dominical venerado por mim. Conversamos; eu relatando tudo que meu amigo dissera, seus prós e meus contras, enquanto ele ouvia, paciente. No fim, exausto, temeroso em relação a réplica que ouviria, questiono: ''Mas, o que podemos fazer se quisermos algo sério, atualmente? Para onde fugir?''


''Bem...'', ele começa, e, pela momentânea sonoridade turva da voz, percebo que mudou o telefone de lado. ''Pelo que foi descoberto, há água em Marte...''


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