Eu precisava fazer a pergunta e, num rubor apropriado, expressei-me, minha voz repercutindo mais grave que o necessário, quase solene: ''O que vocês acreditam que acontece depois do amor?''

Com os garfos depositados no lado esquerdo do prato, meus amigos encararam-me, atônitos. De seus respectivos lugares à mesa - um na esquerda; o outro à direita - trocaram olhares; minha saúde mental, previ, seria o tópico ao voltarmos pra casa.  

''O que você quer dizer?'', meu amigo jornalista indagou, retomando o talher e investindo na salada tailandesa. Sentávamos os três no andar superior do restaurante, como de costume, a calidez noturna embalando o recinto com seu lirismo melancólico. 

''O que acontece com o amor depois do amor?'', digo, comprimindo os dedos por debaixo da mesa. ''O que acontece quando você encontra o amor de sua vida, mas não fica com ela? Refiro-me à amor de verdade'', apresso-me na iminência de ser interrompido. ''Falo sobre almas gêmeas.'' 


Inspeciono suas expressões e gestos; ambos, com uma hesitação polida, conjecturando de quem seria a primeira réplica. ''Sendo sincera'', minha amiga, sommelière, começou. Ela sempre solicitava a carta de vinhos em nossos encontros e, naquela noite, não fora diferente. ''Eu já encontrei a minha alma gêmea e foi tudo o que sempre disseram. Foi amor à primeira vista, sabe?'' Com a cadeira direcionada à ela, aceno em avidez. ''Houve aquele torpor, mas, também, uma vivacidade ímpar. O engraçado é que as coisas não pareciam ser mais importante do que ele, deixando até mesmo de existirem na sua presença, porém, ao mesmo tempo, tudo ganhava mais cor.'' Trêmula, voltou-se para o pappardelle. ''Era como se ele fosse o pesadelo mais belo que sonhei.''


''Eu acho tudo isso besteira'', meu amigo exclamou, ''completamente nonsense. Até sua descrição é cinematográfica demais. Amor existe? Claro. Duas pessoas podem construir um relacionamento saudável e duradouro, se houver reciprocidade. Amor é interesse, dedicação e zelo. Mas almas gêmeas não existem. Percebam que ideia terrível é a de que toda sua felicidade está concentrada num individuo, em um único individuo.'' Ele apanhou a taça, pousando-a com a mão no ar. ''Existem o quê? Sete bilhões de pessoas no mundo? E, em algum lugar, em alguma época, que talvez não a minha, o amor da minha vida está à espera. Além de ser ridículo, é injusto! Não quero ser a única razão de felicidade, ou tristeza, na vida de outra pessoa. Não quero ficar projetando irrealidades e vice-versa. Por que não podemos ser, cada um, responsáveis por nossas alegrias e dissabores e, então, compartilhá-las?'', suspendeu a fala para entornar a bebida. ''Odiaria ser a alma gêmea de alguém.''


Num movimento delicado, olhei para minha amiga e perguntei o que lhe acontecera. Se, depois, conseguira amar outra pessoa com a mesma intensidade. ''Não'', ela oferece-me um sorriso discreto, sem brio. ''Digamos que eu não era a alma gêmea da minha alma gêmea.'' 




Quando retornei para a casa, abandonando roupas e acessórios no chão da sala, parei na porta do quarto, encarando a cama bagunçada. A ideia de ligar para ele resoluta antes mesmo de cogitada. Apanho o celular e, após cumprimentos introdutórios, narro toda a conversação; todos os dilemas e elucidações, todas as conjecturas e fatos, e, adicionando pormenores tragicômicos à situação, indago, no fim, com uma serenidade dissimulada: ''Existe vida após o amor?'' 


''Bem...'', ele diz, um pouco ofegante, alcançara-o chegando do jogging vespertino. ''Concordo com a noção de amor do seu amigo, e, por mais fantasioso que pareça, o relato de sua amiga também é crível. O amor, algumas vezes, acontece por si só. Na rua, no cinema; não é possível agendá-lo. E, no final das contas'', ouço-o abrindo as janelas, ''o amor sempre encontra o próprio caminho. Você pode estar, nesse exato momento, falando com o amor de sua vida, sem ainda saber.''  



2 Comentários

  1. Você é sensacional, Manu. Tá escrevendo cada vez melhor, dá um baita orgulho de ver!

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  2. É uma escrita que lança a mente para o alto; um humor inteligente, diálogos cheio de interrogações e de um charme irresistível; sucesso! E continue.

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